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O Mal Nosso de Cada Dia | Resenha


O Mal Nosso de Cada Dia (The Devil All the Time em inglês) é um dos novos lançamentos da DarkSide® Books, é o primeiro romance do autor Donald Ray Pollock.

O autor passou boa parte da sua vida em Knockemstiff, Ohio, ele trabalhou como operário e motorista de caminhão e aos 50 anos decidiu seguir seu sonho e se matriculou na Ohio State Universidade. Enquanto se graduava, Pollock publicou sua coleção de contos de estreia, Knockemstiff.

Pollock escolheu Ohio como palco da maioria dos seus romances e contos, seu romance de estreia tem boa parte da sua trama ambientalizada na pequena cidade de Knockemstiff, um lugar pacato, com uma população pequena e que a primeira vista pode até se parecer tranquilo, mas quando nos aprofundamos em O Mal Nosso de Cada Dia percebemos que todos os seus cidadões estão ou lutando contra a maldade em si, ou se entregando a ela.

Sinopse - DarkSide® Books: “Em uma cidade esquecida no interior de Ohio, a esposa de Willard Russell está à beira da morte, não importa o quanto ele beba, reze ou faça sacrifícios e oferendas. Com o passar dos anos, seu filho Arvin, uma criança negligenciada, torna-se um homem frio e cruel. Em torno deles, circula um nefasto e peculiar grupo de moradores — um insano casal de assassinos em série, um pastor que come aranhas e um xerife corrupto —, todos entrelaçados numa viciante narrativa da mais corajosa e sombria lavra americana.”

O livro não deixa de ser um emaranhado de histórias sombrias, com personagens que levam uma carga esgotante da vida. O que diferencia um do outro nesse mundo é a forma como eles deixam a tragédia cotidiana moldar o seu futuro.

Donald Ray Pollock desenha em 300 páginas o destino de cerca de 12 personagens indispensáveis para contar a história de Arvin Russell, um garoto que aprendeu desde cedo que a vida é feita, também, de facetas horríveis.

A história se inicia logo após o fim da segunda guerra mundial, Willard Russell volta pra casa com os seus traumas de guerra na mochila, em seu caminho, em uma parada de ônibus em Ohio, ele se encanta por uma jovem garçonete que o serve um bolo de carne seco, mesmo com a comida horrível do lugar, a beleza da jovem Charlotte o encanta e mesmo após chegar em casa o rapaz não consegue esquecê-la. Porém, sua mãe, Emma já havia traçado sua história ao fazer uma promessa, ela jurou que casaria o filho com a jovem órfã Helen, para que ele pudesse cuidar da solitária e religiosa moça.

Emma provavelmente, como uma incurável religiosa, entende que selou ali, no túmulo da mãe de Helen, a promessa que desencadearia a desgraça do futuro. Após muitas tentativas de Emma, Willard e Helen seguem caminhos diferentes, a jovem casa com um pastor excêntrico que come insetos enquanto prega ao lado do primo aleijado e Willard cassasse com a bela garçonete, Charlotte.

O destino pode ter sido amaldiçoado pela promessa não cumprida, ou é apenas o mal recorrente da vida, o autor pouco filósofa sobre isso, mas o título do livro está aí para nós dar uma ideia.

Charlotte adoece e Willard cai em uma viagem sem volta para o fundo do poço, ele esgota todas as suas energias rezando e procurando oferendas, a fim de convencer ao seu Salvador de que a sua esposa merece viver. Em sua dor, ele coloca o filho em situações ruins e o negligência por muito tempo, suas forças apenas o permite rezar e pedir pela vida de sua amada. Após o desastroso desfecho, Arvin vai morar com sua avó Emma, seu tio Earskell e Leonora, filha de Helen.

Arvin cresce com uma raiva efervescentes, após ver tantos desfechos ruins e ser criado em uma cidade completamente conservadora, ele passa a tentar viver da forma que acha certo e levando alguns ensinamentos do seu pai, como por exemplo, não levar desaforo para casa.

A sinopse do livro descreve Arvin como um homem frio, moldado assim pela vida, mas acredito que ele seja um sobrevivente que se esforçou mais do que os outros para defender as pessoas que ama e protegê-las de uma vida cruel.

Para contar a história de Arvin, o autor traz à tona algumas outras histórias de personagens que se ligam em algum momento ao destino do rapaz. Como por exemplo, Lenora, a filha de Helen a qual é criada com Arvin, como irmãos. O rapaz se dedica a proteger a garota caricata, que tenta de todas as formas seguir os mesmos passos que a mãe. A garota que é descrita como pálida e extremamente magra, não carrega em si beleza física, mas se molda em cima de uma fé devota, a fim de se conectar com sua mãe.

O xerife Lee Bodecker parece uma pessoa desprezível desde a primeira página dedicada à sua história, ele também serviu na guerra e mora na cidade em que os pais de Arvin faleceram. Diferente dos outros personagens, Lee não tem uma história de vida sofrida, o máximo que aconteceu em sua vida foi ser abandonado pelo pai e ter ido para a guerra. Ele comete diversos trabalhos ilegais e tem uma mentalidade sórdida, onde age friamente para se beneficiar e conseguir subir ainda mais.

Sandy e Carl são outros dois personagens importantes e que acompanhamos a trajetória, eles são incomuns e a única coisa que os liga é a série de assassinatos que eles cometem enquanto viajam pelo país dando carona para homens ou “modelos” como eles chamam. Sandy é irmã de Lee e é empurrada pelo mesmo, para a vida adulta muito antes de estar preparada para tal, ela é obrigada a abandonar os estudos e tomar o posto integral no trabalho de garçonete no mesmo restaurante em que os pais de Arvin se conheceram. Não é muito difícil ligar os pontos e entender que Sandy apenas caiu no papo de Carl, enquanto tentava achar uma oportunidade, em uma cidade pequena, sem estudos e onde mulheres são quase obrigadas a se casar, ela compra a história floreada do fotógrafo charlatão e todo aquele sonho de ir pra Califórnia.

Carl é um dos personagens mais perdidos do livro, sua veia psicopata é bem visível, pois desde o início ele se mostra como uma pessoa completamente desprendida de sentimentos e conceitos morais, sem contar a sua lábia persuasiva que é o seu trunfo, já que ele não tem uma boa aparecia e é descrito como desleixado e preguiçoso.

O pastor, Preston Teagardin chega em uma época mais avançada da história, quando Arvin já está prestes a se formar no colégio. Ele vem à cidade para substituir o pastor que está doente, mas o pastor nunca quis estar ali, muito menos seguir os passos de seu cunhado. Criado com regalias, seu sonho era fazer faculdade de direito, mas foi obrigado pela mãe a se formar em uma universidade de teologia e para continuar sendo mantido, ele vai para a cidade. Teagardin é mais um dos que usam o seu status para encobrir seus atos “profanos”, com uma visão deturpada da religião o pastor demonstra traços de um pedófilos desde sua primeira aparição, casado com uma moça que é descrita como menor de idade, ele usa a sua posição de pastor para chegar em garotas adolescente.

Os personagens são bastante caricatos e trazem características fortes do centro-oeste dos Estados Unidos, de forma sútil o autor levanta temas que são tabus, principalmente nessa região do país, como fanatismo religioso, homofobia, racismo e diversos atos conservadores que são extremamente problemáticos. Ele retrata a divisão entre brancos e negros e o posicionamento político pautado no conservadorismo republicano, que são extremamente latentes na época em que se passa a história. Diversos personagens usam palavras pejorativas para descrever negros, homossexuais e mulheres, deixando as claras a intolerância da época. Mesmo tendo boa parte da história retratada nos anos 60, alguns dos temas continuam atuais e acho que o autor os usa para expor problemáticas que a sociedade continua carregando e que ferem a tantas pessoas, ficam ali quase como um aviso vergonhoso de que falta muito para uma evolução.

Pollock não usa de muitas cenas exacerbadas de ação, por mais que ele tenha dois personagens serial killer, ele se prende mais no conceito moral, em sinalizar a maldade e por isso não elabora cenários sanguinários e detalhados sobre os crimes. O foco está na guerra interna de cada um, como a suas mentes funcionam e em como a sequência do mal vivenciado por cada um os afeta na sua tomada de decisões.

O leitor consegue entender como a mente dos personagens principais funciona, sem floreio e sem restrições, com todas as partes feias e maluquices expostas. Ele mergulha funda na maldade oferecida pela própria sociedade e em como as mazelas da vida podem criar monstros incuráveis ou as pessoas podem simplesmente escolherem ser más, mesmo tendo uma vida privilegiada, quando comparada a outros.

O livro possui um narrador onipresente e conta os pontos chaves da vida de alguns personagens, alguns mais explorados e mais relevantes, mas todos interligados. Boa parte do livro o leitor passa apreensivo achando que todas aquelas histórias nunca vão se encontrar e fazer sentido, porém acredito que é completamente proposital, já que o autor escolhe pontos chaves para amarrar a história. 

Obviamente ficam algumas dúvidas no caminho, que não deixa de ser a curiosidade do leitor de saber exatamente de onde veio cada personagem e para onde eles vão, no entanto, o autor conta de forma muito completa e detalhada a história que ele se propõe a contar, na linha cronológica escolhida por ele.

Amarrar diversas histórias não é fácil, mas Pollock fez isso muito bem. Ele conseguiu desenrolar todos os pontos que levavam a história de Arvin e a construção de sua personalidade.

Arvin é descrito como um vilão na sinopse faz sentido, pois querendo ou não boa parte dos vilões agem em função de achar que fará um bem maior quando escolhe se vingar. Arvin viu seus pais morrerem, viveu uma vida simples e sem privilégios, viu sua melhor amiga e quase irmã sofrer, principalmente por conta do recorrente bully que sofria por conta de sua aparência e fé. Muito do que ele faz é tentando defender as pessoas que ama e se defender, o que nos faz contestar o quesito “vilão” e coloca-lo em uma posição de herói, porque querendo ou não ele é a única forma de justiça capaz de pesar e parar algumas maldades que acontece na cidade, o autor traz a história do garoto de forma crua e mostra que a origem de um vilão e que nem sempre ele esta completamente ligado a um plano maléfico e a desejos cruéis.

A forma como os destinos são ligados e como o autor escolhe ligar os personagens é feita de uma forma realista e surpreendente. O cenário dos anos 60 é muito bem descrito, o autor consegue trazer detalhes de locais, cheiro e cenas que te transportam para a história e te permite enxergar e compreender o momento. Pollock foi comparado com os autores americanos John Steinbeck e Cormac McCarthy.

A Netflix vai transformar o livro em filme e a produção estreia esse ano (2020), no dia 16 de setembro. O elenco traz nomes de peso como Tom Holland, Bill Skarsgard, Riley Keough, Jason Clarke, Sebastian Stan, Robert Pattinson, Haley Bennett, Mia Wasikowska, Eliza Scanlen, Harry Melling e Pokey LaFarge.


Assista ao trailer:

O Mal Nosso de Cada Dia | Resenha O Mal Nosso de Cada Dia | Resenha Reviewed by Ana Caroline Moraes on Rating: 5

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