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“Rocketman”, a cinebiografia (e a playlist) mais fabulosa de todas

Taron Egerton interpreta o ídolo britânico Elton John na cinebiografia do músico, "Rocketman".
Filme que conta história da vida de Elton John é luz em meio a um cenário obscuro de cinebiografias de rockstars feitas nas coxas; não deixe de escutar nossa playlist especial no fim desta crítica

Muita luz. Muito brilho. Muita cor. Muita magia. Se tem uma palavra que define “Rocketman”, cinebiografia fantástica do superastro britânico Sir Elton John dirigida por Dexter Fletcher, essa palavra é “glam”. Assim como tudo o que o biografado fez e ainda faz, o longa que conta a história de parte de sua vida é luxuoso e envolto numa aura glamurosa do mais bom gosto que existe. Lançado nos cinemas no último dia 30 de maio, o filme é não apenas um presente para a comunidade LGBTQI+ do mundo (cujo orgulho é celebrado em junho) e os fãs do músico, mas também uma lição de como se deve homenagear e ser leal à história do personagem biografado sem clichês, pieguice e, claro, preconceito.
Elton, no filme, é interpretado por Taron Egerton (“Kinksman: O Círculo Dourado”), que entrega uma atuação digna de grandes premiações. É ele próprio, enquanto Elton John, que narra a história, a partir de uma reunião da reabilitação. Ele conta desde a sua infância (quando ainda respondia pelo nome de Reginald Kenneth Dwight) e seus primeiros passos no piano até sua ascensão à fama, passando pelas descobertas sexuais, pressão pela saída do armário, problemas com a família e o vício em álcool e outras drogas.
Um dos grandes destaques do roteiro (escrito por Lee Hall) é o da escolha de não se deixar levar pela chatice de colocar o protagonista como alguém que tem como único objetivo de vida encontrar o seu grande amor (ou de ser feliz ao lado de alguém, ou qualquer bobagem assim, coisa que muita biografia fez ainda faz por aí). O Elton John representado em “Rocketman” é alguém frágil e doce, machucado, mas forte, alguém que busca compreender a própria identidade e se livrar das humilhações do passado. Durante seu caminho, é acompanhado por seu melhor amigo e grande parceiro de composições, Bernie Taupin (interpretado excelentemente por Jamie Bell, de “Billy Elliot”). A relação entre os dois, ainda hoje, vai além da amizade e das parcerias musicais, é coisa de irmandade, e ver a sutileza de uma relação assim ser tão bem representada num filme biográfico dá até esperanças depois de algumas bombas recentes.

A forma delicada com que a relação de amizade e companheirismo entre Elton John (Taron Egerton) e Bernie Taupin (Jamie Bell) é mostrada no filme é um dos maiores acertos do longa dirigido por Dexter Fletcher.
Apesar de não ser muito adepto de comparações, seja qual for a natureza delas, é importante ressaltar que “Rocketman”, diferentemente de outras obras que tentam contar a história da vida de astros do rock e se perdem ao mentir, deturpar, distorcer, trucidar e maquiar a verdade que já não é mais segredo para ninguém, especialmente para os fãs (*cof* *cof* “Bohemian” *cof* “Rhapsody” *cof*), assegura maior parte de sua força e aspectos positivos justamente na forma com que retrata um grande ídolo sem omitir seu lado mais mundano e sombrio e sem aumentar a parcela “diva” de sua personalidade. Nesse sentido, o longa é extremamente necessário numa nova era em que descobriram que é tão legal fazer cinebios de rockstars quanto é interessante e lucrativo fazer filmes de super-heróis e remakes de animações, pois é um filme tão competente que deve sim servir de exemplo para os realizadores que pretendem contar histórias da mesma natureza.


As fraquezas, a humanidade e a luz de superstar estão todas ali, em níveis equilibrados, sem exagero – nem para mais, nem para menos –, tudo intermediado e possível graças à atuação excelente de Egerton. Raras são as vezes em que o vemos em cena e lembramos que não é, de fato, o próprio músico com seus 20 e poucos anos representando a si mesmo, com sorrisos largos e contagiantes. O ator vai além do brilho dos figurinos lindos e exuberantes, feitos com o máximo de cuidado para serem idênticos aos originais usados por Elton ao longo de sua carreira, não dependendo deles e de outras muletas para realizar uma ótima interpretação e brilhar tanto quanto as lantejoulas das roupas (sem indiretas).
Outro ponto a ser destacado no quesito atuação é a escolha assertiva de Bryce Dallas Howard (“Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros”) para interpretar a mãe de Elton John, Sheila Eileen. Sheila era totalmente alheia à vida do filho, inclusive não fazendo muito com relação ao afastamento do pai (Stanley Dwight, interpretado por Steven Mackintosh) de Elton. Sem nenhuma dúvida, a atuação de Bryce renderá a ela indicações na próxima temporada de premiações.

A atuação de Bryce Dallas Howard como Sheila Eileen, mãe de Elton John, é um dos grandes destaques do filme.
Tão incrível quanto as atuações de Egerton e Bryce é a escolha da trilha sonora do filme. Elton, como todo ser humano vivente entre os séculos passado e presente deve saber (mesmo sem ter consciência de que sabe; mesmo que por osmose), é responsável por alguns dos maiores hits da história da música mundial. A escolha das músicas que entrariam para a trilha, sem dúvida, não deve ter sido tarefa fácil. No entanto, é perceptível o cuidado e o zelo em encaixar cada verso de cada música por entre as linhas de um roteiro enxuto que não sofre de pressa e, muito menos, de superficialidade, como em outros casos (*cof* *cof*, me engasguei de novo, desculpe).
Esteticamente, é impressionante o quanto o filme como um todo se assemelha aos palcos dos shows do músico. Quem já teve a oportunidade de assisti-lo ao vivo passará pela sensação de que há certa unidade visual entre a mais pura essência do glam rock expressa nas apresentações de Elton John e a fotografia, efeitos, cores, orgasmos de luz e, inclusive, a edição do filme. Essa conversa entre o real e a representação da realidade funciona tão bem que é um dos fatores que mais dá legitimidade ao longa enquanto leitura e interpretação da vida de alguém.


“Rocketman” não é apenas um filme-show provocador de nostalgia e nada além. Não é para causar um “revival” de venda de discos e a renovação de fãs de um grupo de velhas que se prendem ao passado, mas que omitem os fatos dele que as assombram (*cof* *cof*, acho que está escorrendo um pouco de veneno aqui). Não é para assistir e sair do cinema com o calor de ter cantado e dançado numa arena lotada sem ter acrescentado nada na vida do espectador, seja ele fã ou não do biografado.
Embora seja impossível não se deixar levar pelas músicas maravilhosas já conhecidas e tão bem incluídas no roteiro; embora as vendas de discos de Elton John possam crescer e seus fãs possam ser, mais uma vez, renovados (apesar de ele não precisar disso e de nunca ter deixado de renovar sua audiência desde que surgiu nos holofotes pela primeira vez); e embora a nostalgia bata na porta da memória a cada acorde tocado; o filme é mais do que uma cinebiografia, pois ele assume a identidade do biografado, respeitando sua própria história, sua trajetória na estrada de tijolos amarelos, sem medo de provocar a ira da audiência mais conservadora (mesmo que isso signifique que algumas pessoas se levantem e vão embora no meio do filme, como infelizmente tem acontecido). Em outras palavras, “Rocketman” tem tutano. Nas palavras do Sir, “[...] eu não levei uma vida com classificação PG-13”.

Texto por Bruno Carvalho

Escute nossa playlist de 15 músicas que não estão na trilha de Rocket Man para conhecer Elton John:



Trailer:


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